Livro investiga condições de trabalho durante ditadura
“Repressão Sociedade Anônima” reúne documentos e depoimentos sobre relações entre empresas e órgãos de repressão e concentra investigação em cinco fabricantes de veículos
Uma investigação de três anos baseada em documentos históricos e entrevistas deu origem ao livro “Repressão Sociedade Anônima”, dos jornalistas Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli. A obra analisa a atuação de empresas privadas durante a ditadura militar brasileira e concentra parte da pesquisa em cinco grandes montadoras instaladas no país.
Mercedes-Benz, Volkswagen, General Motors (GM), Scania e Ford estão entre as fabricantes analisadas pelos autores, que direcionaram a pesquisa principalmente para o Grande ABC Paulista, região historicamente marcada pela presença da indústria automobilística e do movimento sindical.
Segundo os pesquisadores, documentos e depoimentos reunidos durante o trabalho apontam diferentes formas de relacionamento entre empresas e o aparato repressivo do período.
Investigação começou a partir de documentos históricos
A discussão sobre a relação de empresas com a repressão durante a ditadura já havia motivado investigações anteriores.
Em 2015, após depoimentos reunidos pela Comissão Nacional da Verdade, o Ministério Público de São Paulo abriu procedimento para investigar a cooperação de empresas com a ditadura, entre elas a Volkswagen.
Anos depois, relatório divulgado pelo Ministério Público apontou que a Volkswagen contribuiu com o aparato repressivo e que integrantes da direção tinham conhecimento dessa relação.
A própria Volkswagen também contratou o historiador alemão Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld, para analisar a atuação da companhia durante o regime militar.
Livro concentra investigação em cinco montadoras
No novo livro, Reina e Ferrasoli ampliaram o olhar para diferentes empresas.
Os autores afirmam ter encontrado informações envolvendo várias companhias, mas decidiram concentrar a publicação em Mercedes-Benz, Volkswagen, General Motors, Scania e Ford, além do ambiente industrial do Grande ABC.
Segundo Eduardo Reina, documentos analisados pelos pesquisadores indicariam apoio financeiro e material de empresas a estruturas ligadas à repressão.
Os autores também relatam a presença de militares e agentes de informação dentro de ambientes industriais.
Essas conclusões são apresentadas pelos pesquisadores a partir dos documentos e depoimentos reunidos durante o trabalho.
Trabalhadores eram monitorados, dizem pesquisadores
Outro ponto abordado pelo livro é o monitoramento de trabalhadores e integrantes de movimentos sindicais.
Segundo os autores, empregados que participavam de greves ou reivindicações poderiam ser identificados e ter informações compartilhadas entre empresas.
Ferrasoli relata que trabalhadores incluídos nessas listas poderiam encontrar dificuldades para conseguir novos empregos em outras companhias.
A obra descreve episódios de vigilância, demissões, prisões e tortura relacionados ao contexto de repressão política do período.
Condições de trabalho também são investigadas
“Repressão Sociedade Anônima” dedica espaço às condições enfrentadas pelos trabalhadores durante a ditadura.
Os autores analisam acidentes de trabalho e sustentam que a precariedade dos registros oficiais dificulta dimensionar com precisão o problema naquele período.
Segundo Reina, dados levantados para a pesquisa mostram que, em determinados momentos da década de 1970, milhares de acidentes de trabalho chegaram a ser registrados em um único dia no país.
Mulheres relatam condições degradantes
A experiência das mulheres dentro das fábricas também ganhou um capítulo específico.
Ferrasoli entrevistou trabalhadoras que começaram a exercer atividades profissionais ainda muito jovens e relataram situações de assédio, tratamento agressivo e controle rígido de suas rotinas.
Entre os relatos reunidos estão restrições relacionadas ao tempo de permanência no banheiro e até ao acesso a itens básicos de higiene.
Os depoimentos ajudam a reconstruir aspectos do cotidiano de trabalhadoras durante o período analisado pelos autores.
Livro relata existência do “Dopinho do ABC”
Durante a pesquisa, Reina e Ferrasoli também investigaram o chamado “Dopinho do ABC”, estrutura que, segundo os autores, funcionava em São Bernardo do Campo, principal polo metalúrgico brasileiro naquele período.
Os pesquisadores descrevem o local como um braço ligado ao sistema de vigilância e repressão, próximo à sede do sindicato dos trabalhadores.
Segundo Reina, trabalhadores e integrantes de movimentos sociais teriam sido detidos e torturados no local.
Os autores defendem que a documentação encontrada indica a necessidade de novas pesquisas sobre as relações entre empresas e estruturas repressivas durante a ditadura.
Volkswagen firmou acordo com Ministério Público
As montadoras citadas também apresentaram diferentes posicionamentos sobre o tema.
A Volkswagen informou aos autores que assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público e destacou ter sido a primeira empresa estrangeira a promover uma revisão de sua própria história durante o regime militar.
A Scania afirmou repudiar violações aos direitos humanos e informou não possuir mais documentos relacionados àquele período.
A Mercedes-Benz disse aos autores não ter identificado, até o momento, evidências de apoio da companhia à ditadura.
A General Motors negou envolvimento em ações repressivas ou colaboração com o regime.
A Ford não apresentou manifestação aos autores do livro. Procuradas posteriormente pela Agência Brasil, as cinco empresas não haviam respondido à reportagem até a publicação.
Pesquisa busca ampliar documentação histórica
Para os autores, ainda existem lacunas importantes sobre a participação empresarial durante a ditadura militar brasileira.
Parte da documentação do período desapareceu ou foi destruída, o que torna depoimentos, arquivos empresariais, registros sindicais e documentos públicos importantes fontes para pesquisadores.
Publicado pela Editora Alameda, “Repressão Sociedade Anônima” pretende contribuir para esse debate ao reunir documentos e testemunhos relacionados principalmente ao ambiente industrial do Grande ABC e à atuação das cinco montadoras investigadas.



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